Nosso ilustríssimo [Bob] tornou a dar o ar de sua graça neste humilde espaço e como sói ele poderia fazer, trouxe à tona uma discussão assaz perspicaz.
Dito isso, por caminhos insondáveis, o questionamento cultural exposto me fez esbarrar com estas duas manifestações artísticas sobre o mesmo tema (o qual, apesar da sutileza das mensagens, creio que todos saberão identificar).
Não farei considerações sobre as obras, acredito que elas falam por si. Primeiramente, um legítimo representante do funk carioca.
{Detalhes: a descrição do vídeo é a letra – didática, por sinal – da bela canção; prosti, a abreviatura – isso dá (tô impossível!) uma gíria; “mas tá de calça nós abaixa, tá de saia nós levanta” – taí um crossover com a lingaguem identificada com o sertanejo, não?}
Agora, uma mostra da interpretação à moda sertaneja do mesmo modus comportamental. É a riqueza que brota do nosso Brasil continental.
{Detalhes: não seu quem é o Flávio e quem é o Vinícius, mas chama atenção a participação emocionada, atenta e cativante do segunda voz no clipe [que, num todo, é muito expressivo]; a música se chama “Prostituto” e transar se torna “besteira” – deve ter a ver com melodia; ê, “vidaloka“…}
E então, vamos debater este importante tópico comportamental-sócio-linguístico-cultural sócio-cultural? Os ilustres fãs deste PAU fiquem à vontade para se manifestar nos comentários. Os não-ilustres e/ou os não-fãs também podem participar.
Sempre fico irritado quando vejo alguém tentando imitar o sotaque carioca. Principalmente se esse alguém for paulista ou mineiro. Talvez seja uma rivalidade pra ver qual estado é mais importante… ou mais rico. Então a gente fica tentando sacanear o outro.
O que mais me irrita nem é o fato deles “arrashtarem” o éssi como se “nóish”, “cariocash”, não “conhecêssemosh” o éssi “delish”. O que me irrita mesmo é o conteúdo das frases que eles falam e a cara de babaca, tentando dizer com gestos que os cariocas são uma bando de vagabundos, surfistas, malandros ou que a gente só serve pra receber turistas com a famosa “simpatia do povo carioca”. Engraçado. Lembro dessa simpatia toda vez que um taxista cruza meu caminho no trânsito. Mas voltemos.
Quando eles percebem que a gente não se irritou com a palhaçada deles, partem logo pra ignorância e começam a dizer que o Rio nunca criou nada de relevante. O Samba é ruim (porque eles não gostam); o Funk nem cultura é; o Choro, se eles lembrarem, vão dizer que já morreu e a Bossa Nova… bem, eles até reconhecem seu valor, mas preferem ignorar por serem metidos a besta demais pra gostar de Samba, Carnaval ou qualquer coisa parecida com o “símbolo da degradação nacional”. Vai ver é por isso que eles lotam as micaretas no Verão. Mas não vou falar mal das micaretas porque, como alguns sabem, sou meio baiano.
E é sempre nessas oras que eu fico imaginando: e se o Funk fosse inventado por um paulista? Já pensou? Se, em vez de cocotas, cachorras e potrancas, tivéssemos “minas” ou “burguesinhas Zona Norte”. E em vez daquele cara sagaz, pegador, que não passa despercebido, tivéssemos um bando de “truta”ou “fiel”. Acho que não ia combinar.
Será que dá pra piorar?
E se um mineiro inventasse a Bossa Nova? Quase posso ouvir um: “Tém dias cô fícu piensânavida e, sinceramientí, não veju saída. Sei lá, sei lá….achuqvôcumêumquêju”.
Estou tentado a acreditar que o sotaque influencia a criatividade de um grupo. Tem coisas que a gente só consegue entender se forem ditas “da maneira certa”. E não adianta tentar imitar, pois não funciona. Gostem ou não, é assim que a gente fala mermo. E é “mermo” mermo.
Venho fazer uma sugestão aos bravos leitores deste espaço virtual que procuram uma película para desfrutar por estes dias: a desbiografia do poeta Manoel de Barros, “Só dez por cento é mentira”.
Ah, documentário, nacional e falando de poesia? Não… Primeiramente, antes de fazer beicinho, lembre-se de nosso bom gosto – salve, Simonal. E, segundamente, jamais colocaríamos vocês em uma furada…
Eu ainda não vi, mas minha filha número cinco viu e gostou. A poesia de Manoel de Barros é belíssima; um homem refletindo sobre a sua experiência, no caso a criação poética; a proposta de jogar com os papéis da verdade, da memória e da invenção no cotidiano.
Enfim, no mais, deixo o trailer abaixo e, se ainda assimvocê não se interessar, pode ir assistir para nos xingar depois.
Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada
Manoel de Barros
I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.
(…)
V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
Não pensem que somente voltamos a postar agora por descaso com vocês, inúmeros leitores. Mas a virada de ano foi um portento – afinal, não somente mudamos a data, como também encerramos uma década de nove anos!
Enfim, sem mais escusas, retornamos com uma história tão 2009 que, antes de tomar como velha, o querido internauta deve receber como choque de realidade: os próximos 365 dias (agora 349 – e contando) serão bem iguais aqueles que passaram…
Imagine só você pensando em dar uma de Lulu Santos ou Maísa (!?!?!?!?!?!?) e sonha com os States, pensando que é chique, primeiro mundo e tal? Tudo organizado, né, aquela estátua bonita, com uns adereços e tudo (enquanto o Cristo só com aquela batinha tão demodê).
Venha, bichano, venha...
Finalmente entrando na história depois de quatro (!) parágrafos – eu gosto de digressões, fazer o quê? Acho que é uma forma de a memória se colocar como predominante na nossa vivência de mundo. Afinal, o agora não está desvinculado do passado, pelo contrário…
… Pois então (!!), o bravo gato “Sal”, retratado com seus “pais” na montagem acima foi convocado para participar de um júri (humano, para registro) em East Boston, nos Estados Unidos.
Os gênios donos do bichano colocaram a criaturinha no Censo, com seu sobrenome. Ante a convocação, entre as opções para evitar o comparecimento, informaram que o miau “não fala inglês“, mas a Justiça ignorou.
Só fiquei curioso para saber qual seria o caso em questão. Vai que de repente, né…
[Sicrano]
P.s.1: adeus ano velho, feliz ano novo, mas clicando na figurinha, vocês recebem a velha lembrancinha…
Você pensando que o seu ano iriai acabar assim, sem nenhuma grande emoção depois daquela rabanada de Natal e o par de meias ganho do velho Noel, não é? Mas faltava alguma coisa para fecharmos com chave de ouro…
… Pois eis que surge Carolinie Figueiredo numa tarde chuvosa de dezembro delirando em pleno Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Até aí, nada demais. Mas, como atriz, ela tinha que cometer o pecado de gravar e divulgar…
Só digo uma coisa: “Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói”, ensinou Stanislaw Ponte Preta.
É o tipo de vídeo que não dá para ver apenas uma vez. Quem concordar comigo e quiser dialogar com a filósofa acima, acompanhe-me, por favor. Sou um adepto das frases e não poderia me furtar a selecionar algumas, ao léu…
Hoje é o dia em que resolvi que vou fazer uma diferença, na minha vida, em quem eu sou…
Bom, tava de bobeira em casa e, você sabe como é, mente vazia é a oficina do capeta, yada, yada, yada, e veio a vontade de cantar uma bela canção…
Pedi luz para fazer coisas diferentes em mim, nas pessoas e no mundo.
Hum, coisas diferentes? Mas diferentes do tipo que você não faz com sua esposa (marido) ou do tipo que deixa você assim?
E no dia da tempestade começou a chover um chuva assim… Que limpa, sabe?
É, tô sabendo. Essas ideias na sua cabeça também são limpas, nem um pouco ácidas…
Não quero me sentir ríducula nem fazer drama depois das coisas
Limpar as minhas máscaras altruístas! Limpar meu discurso de Miss Brasil!
O PAU não é dono do mundo, mas… E descobriu a máscara altruísta da nossa jovem filósofa – ao menos a de oncinha. Mas como em toda boa novela (alô, Malhação!), esta cena fica para um próximo capítulo.
[Sicrano]
P.s.1: como vocês sabem, clicou na imagenzinha, ganhou uma lembrancinha.
P.s.2: esses muitos links são para tentar dialogar com o pensamento abrangente de nossa jovem estrela.
P.s.3: quem quiser destacar seu trecho preferido do vídeo, fique livre para acrescentar nos comentários.
Quatro pessoas entraram no ônibus, logo no início do trajeto. Na frente, dois jovens, não mais do que dez e 12 anos. Atrás, duas senhoras – a primeira carregava bolsas, a segunda o dinheiro da passagem.
O veículo não estava lotado, mas pela disposição dos passageiros, os dois garotos vieram sentar-se ao meu lado, na última fileira e as mulheres acabaram em dois bancos distintos mais a frente.
Camisa de manga curta com uma estampa comum, bermuda discreta, meia e tênis – os meninos usavam roupas parecidas. Conversavam alegre, porém discretamente.
Que fofo...
As senhoras, por outro lado, falavam alto, metidas em roupas coloridas. Eles olhavam de rabo de olho e voltavam-se ao seu canto. Lembraram a mim em vaigens juvenis imemorias.
Durante o percurso, um vendedor ambulante entrou e anunciou seus produtos: bala, bombom, mentos, amendoim. A maioria permaneceu indiferente. O trânsito estava lento.
A senhora mais a frente virou-se e sutilmente berrou: “Vocês querem alguma coisa”? Os garotos encolheram-se um pouco e fingiram não se com eles. Na terceira tentativa dela, soltaram um rouco “Não, não, tia, obrigado”.
Se tem uma coisa que eu odiava era meus pais falando alto – em qualquer situação, especialmente em ambientes públicos. Talvez um desejo de passar despercebido (por várias questões), um medo de ser notado.
Um Noel brasileiro, acariocado. Ho ho ho
A senhora comprou um pacote de amendoim e dois bombons. O vendedor andou mais um pouco dentro do ônibus que, por sua vez, arrastava-se sob o sol forte do início da tarde.
Novamente uma voz feminina ouviu-se no veículo: “Meninos, querem alguma coisa”? Também alta, com uma vibração que incomodava. Os meninos assutavam-se e voltaram ao mantra sussurrado: “Não, não, mãe, obrigado”.
Enquanto escolhia algo entre as iguarias do vendedor, a mãe repetia insistentemente: “Meninos, querem alguma coisa”? A resposta foi a mesma cinco vezes. Mudou na sexta.
Eles queriam algo – quem não gosta de doces -, mas a forma do pedido os incomodava. Queriam algo rápido, sem que outros soubessem as suas escolhas, o que evitaria julgamentos.
O mais velho pediu um mentos vermelho, de forma rápida. Vieram duas caixinhas. O mais novo sussurou um “mãe” enquanto ela resolvia o valor das compras com o ambulante. Não ouviu.
O que é, o que é?
Quando o vendendor foi embora, conseguiu chamar sua atenção: “Eu estava te chamando”. Ao que ela retrucou, a distância de quatro fileiras: “Ah, quando eu perguntei, ninguém queria nada, agora, querem escolher isso, aquilo”…
A altura da voz materna o fez ir ainda mais para o canto. Os irmãos ficaram estáticos por alguns instantes, caixinhas nas mãos. As senhoras seguiram tagarelando.
Meu destino chegou e, ao caminhar para a saída – o ônibus já mais vazio -, vi os meninos cochichando e rindo, comendo as balinhas avermelhadas, sabor cereja.
Supus que iriam fazer aquelas compras de Natal, entre milhares de pessoas amontoadas nos centros das cidades. Olhariam as vitrines, sonhando com que presentes Papai Noel (pode)ria lhes trazer.
Porque o Carnaval, ó, é logo ali...
[Sicrano]
P.s.: qualquer semelhança como Noel é mera coincidência, mas sabem os espertinhos: clicando na imagem, levam presentinhos.
- Você sabe que eu não gosto muito dessa papagaiada de me vestir toda de um jeito só, né?
- Não vai nem olhar?
- Então, não gosto, mas tenho que tá preparada, né? Já tenho essa sandália de tigresa em casa!
- Toda poderosa, então…
- Pois, é, nunca se sabe. Hoje tô com a calcinha de tigresa. Vai que o bofe que me quer toda montada à noite. Nâo posso ser pega de surpresa…
Assim, para além da questão do gosto duvidoso da moçoila, o maior problema é que eu sou uma pessoa que imagina coisas. Então, as possibilidades resultantes desta audição involuntária podem ser…
Já tá ficando sem graça dizer que “demorou, mas estou de volta”, mas é isso… levou um tempo, mas eis que retorno ao Pau na Mesa. E agora, além de especialista em piadas atrasadas, estou desenvolvendo a nada saudável habilidade de levar quase um mês para fechar um post. Enfim, era uma vez….
…
Conversinha no banco de trás do ônibus. Em pauta, o futuro. Papo vai, papo vem, o rapaz vira para a moça e constata:
- Ano que vem tem vestibular…
- Ah!, no ano que vem quero estar estudando…
Ele disse o que queria fazer da vida, mas não lembro. Ela não tinha certeza, mas mostrou uma inclinação:
- Acho que quero jornalismo, ou algo relacionado a… a comunicação – garantiu sem muita garantia.
- Ciências humanas, então?
- Jornalismo…
- Jornalismo é Ciências Humanas – disse, já com um ar superior.
- Ah!, tá. Mas eu quero fazer teatro também. Já faço no colégio, quero continuar fazendo. Por isso que eu quero fazer jornalismo. Porque ser atriz, sabe como é…
O papo esfriou um pouco e o moleque resolveu apelar para o terror:
- Mas jornalista sofre muito. Você não escreve o que quer. Escreve o que o seu editor, seu redator, seu redator-chefe quer…
- Mas eu quero ser é chefe…
- Mas até lá vai sofrer muito – caprichou no tom dramático.
De ponto em ponto, caçando buracos no asfalto, o ônibus caprichou no barulho e perdi um pedaço do diálogo. Quando meus ouvidos voltaram a captar as vozes, o drama já tinha evoluído:
- Fogo é esse negócio do diploma não valer mais nada – deve ter dito a menina (algo por aí…)
- Mas não é assim. Se diploma de particular já não vale quase nada, imagina sem diploma. A lei não é para qualquer um. É pro faxineiro que pega no microfone uma vez e começa a trabalhar. Só privilegia as personalidades. É tipo o Mendigo do Pânico. Ele era boy…
Sem argumento, ela resolveu voltar a falar sobre a (falta de) liberdade do jornalista:
- Sabe o Marcelo Adnet? O Marcelo Adnet do Z. É.?
- Marcela o quê? Não sei quem é essa mulher não? – (parei para pensar nisso depois, mas, falando rápido, MarceloAdnet, marceladnet, marceladinê vira Marcela Dinet fácil, fácil. Voltando à conversa…)
- MarcelOOOOO. Não acredito que não conhece. Marcelo Adnet. Muito inteligente! Foda! Do Z. É. A peça. É tipo assim, mais comédia – explicou, com um desdém filho da puta.
- Não acredito, cara… o Marcelo Adnet . O cara é foda, inteligente demais. Ele é ator também, fez várias participações em vários programas. Até da Globo. Mais foi no Z.É. que o pessoal conheceu mais ele. Aí a MTV deu o “15 minutos” para ele.
- Hmmm…
- É o programa dele. É ótimo. Também é tipo, mais comédia, tem umas músicas e tal… Diz que a Globo tentou comprar ele por bem mais do que ele recebe na MTV, mas ele não quis. Porque ele não ia poder falar o que fala…
- Mas ele não pensa em evoluir na carreira?
- Essa não é a dele, cara. Ele disse que depois quer virar político.
- … sério?
- É sério, ele quer entrar na política… O Brasil vai perder um grande humorista…
- Imagino… pelo menos a política vai ganhar um humorista – arrematou o moleque.
Depois desse comentário espirituoso, levantei, puxei a cordinha para o apito gritar e caminhei com decisão para a porta. Era meu ponto. A piada até que era boa. Ou não.
Bem lembrado. Pois é.
[Bigode]
(Dando crédito, a íntegra do programa de onde tirei o jingle está aqui, aqui, aqui e aqui.)