Quatro pessoas entraram no ônibus, logo no início do trajeto. Na frente, dois jovens, não mais do que dez e 12 anos. Atrás, duas senhoras – a primeira carregava bolsas, a segunda o dinheiro da passagem.
O veículo não estava lotado, mas pela disposição dos passageiros, os dois garotos vieram sentar-se ao meu lado, na última fileira e as mulheres acabaram em dois bancos distintos mais a frente.
Camisa de manga curta com uma estampa comum, bermuda discreta, meia e tênis – os meninos usavam roupas parecidas. Conversavam alegre, porém discretamente.
Que fofo...
As senhoras, por outro lado, falavam alto, metidas em roupas coloridas. Eles olhavam de rabo de olho e voltavam-se ao seu canto. Lembraram a mim em vaigens juvenis imemorias.
Durante o percurso, um vendedor ambulante entrou e anunciou seus produtos: bala, bombom, mentos, amendoim. A maioria permaneceu indiferente. O trânsito estava lento.
A senhora mais a frente virou-se e sutilmente berrou: “Vocês querem alguma coisa”? Os garotos encolheram-se um pouco e fingiram não se com eles. Na terceira tentativa dela, soltaram um rouco “Não, não, tia, obrigado”.
Se tem uma coisa que eu odiava era meus pais falando alto – em qualquer situação, especialmente em ambientes públicos. Talvez um desejo de passar despercebido (por várias questões), um medo de ser notado.
Um Noel brasileiro, acariocado. Ho ho ho
A senhora comprou um pacote de amendoim e dois bombons. O vendedor andou mais um pouco dentro do ônibus que, por sua vez, arrastava-se sob o sol forte do início da tarde.
Novamente uma voz feminina ouviu-se no veículo: “Meninos, querem alguma coisa”? Também alta, com uma vibração que incomodava. Os meninos assutavam-se e voltaram ao mantra sussurrado: “Não, não, mãe, obrigado”.
Enquanto escolhia algo entre as iguarias do vendedor, a mãe repetia insistentemente: “Meninos, querem alguma coisa”? A resposta foi a mesma cinco vezes. Mudou na sexta.
Eles queriam algo – quem não gosta de doces -, mas a forma do pedido os incomodava. Queriam algo rápido, sem que outros soubessem as suas escolhas, o que evitaria julgamentos.
O mais velho pediu um mentos vermelho, de forma rápida. Vieram duas caixinhas. O mais novo sussurou um “mãe” enquanto ela resolvia o valor das compras com o ambulante. Não ouviu.
O que é, o que é?
Quando o vendendor foi embora, conseguiu chamar sua atenção: “Eu estava te chamando”. Ao que ela retrucou, a distância de quatro fileiras: “Ah, quando eu perguntei, ninguém queria nada, agora, querem escolher isso, aquilo”…
A altura da voz materna o fez ir ainda mais para o canto. Os irmãos ficaram estáticos por alguns instantes, caixinhas nas mãos. As senhoras seguiram tagarelando.
Meu destino chegou e, ao caminhar para a saída – o ônibus já mais vazio -, vi os meninos cochichando e rindo, comendo as balinhas avermelhadas, sabor cereja.
Supus que iriam fazer aquelas compras de Natal, entre milhares de pessoas amontoadas nos centros das cidades. Olhariam as vitrines, sonhando com que presentes Papai Noel (pode)ria lhes trazer.
Porque o Carnaval, ó, é logo ali...
[Sicrano]
P.s.: qualquer semelhança como Noel é mera coincidência, mas sabem os espertinhos: clicando na imagem, levam presentinhos.
- Você sabe que eu não gosto muito dessa papagaiada de me vestir toda de um jeito só, né?
- Não vai nem olhar?
- Então, não gosto, mas tenho que tá preparada, né? Já tenho essa sandália de tigresa em casa!
- Toda poderosa, então…
- Pois, é, nunca se sabe. Hoje tô com a calcinha de tigresa. Vai que o bofe que me quer toda montada à noite. Nâo posso ser pega de surpresa…
Assim, para além da questão do gosto duvidoso da moçoila, o maior problema é que eu sou uma pessoa que imagina coisas. Então, as possibilidades resultantes desta audição involuntária podem ser…
Já tá ficando sem graça dizer que “demorou, mas estou de volta”, mas é isso… levou um tempo, mas eis que retorno ao Pau na Mesa. E agora, além de especialista em piadas atrasadas, estou desenvolvendo a nada saudável habilidade de levar quase um mês para fechar um post. Enfim, era uma vez….
…
Conversinha no banco de trás do ônibus. Em pauta, o futuro. Papo vai, papo vem, o rapaz vira para a moça e constata:
- Ano que vem tem vestibular…
- Ah!, no ano que vem quero estar estudando…
Ele disse o que queria fazer da vida, mas não lembro. Ela não tinha certeza, mas mostrou uma inclinação:
- Acho que quero jornalismo, ou algo relacionado a… a comunicação – garantiu sem muita garantia.
- Ciências humanas, então?
- Jornalismo…
- Jornalismo é Ciências Humanas – disse, já com um ar superior.
- Ah!, tá. Mas eu quero fazer teatro também. Já faço no colégio, quero continuar fazendo. Por isso que eu quero fazer jornalismo. Porque ser atriz, sabe como é…
O papo esfriou um pouco e o moleque resolveu apelar para o terror:
- Mas jornalista sofre muito. Você não escreve o que quer. Escreve o que o seu editor, seu redator, seu redator-chefe quer…
- Mas eu quero ser é chefe…
- Mas até lá vai sofrer muito – caprichou no tom dramático.
De ponto em ponto, caçando buracos no asfalto, o ônibus caprichou no barulho e perdi um pedaço do diálogo. Quando meus ouvidos voltaram a captar as vozes, o drama já tinha evoluído:
- Fogo é esse negócio do diploma não valer mais nada – deve ter dito a menina (algo por aí…)
- Mas não é assim. Se diploma de particular já não vale quase nada, imagina sem diploma. A lei não é para qualquer um. É pro faxineiro que pega no microfone uma vez e começa a trabalhar. Só privilegia as personalidades. É tipo o Mendigo do Pânico. Ele era boy…
Sem argumento, ela resolveu voltar a falar sobre a (falta de) liberdade do jornalista:
- Sabe o Marcelo Adnet? O Marcelo Adnet do Z. É.?
- Marcela o quê? Não sei quem é essa mulher não? – (parei para pensar nisso depois, mas, falando rápido, MarceloAdnet, marceladnet, marceladinê vira Marcela Dinet fácil, fácil. Voltando à conversa…)
- MarcelOOOOO. Não acredito que não conhece. Marcelo Adnet. Muito inteligente! Foda! Do Z. É. A peça. É tipo assim, mais comédia – explicou, com um desdém filho da puta.
- Não acredito, cara… o Marcelo Adnet . O cara é foda, inteligente demais. Ele é ator também, fez várias participações em vários programas. Até da Globo. Mais foi no Z.É. que o pessoal conheceu mais ele. Aí a MTV deu o “15 minutos” para ele.
- Hmmm…
- É o programa dele. É ótimo. Também é tipo, mais comédia, tem umas músicas e tal… Diz que a Globo tentou comprar ele por bem mais do que ele recebe na MTV, mas ele não quis. Porque ele não ia poder falar o que fala…
- Mas ele não pensa em evoluir na carreira?
- Essa não é a dele, cara. Ele disse que depois quer virar político.
- … sério?
- É sério, ele quer entrar na política… O Brasil vai perder um grande humorista…
- Imagino… pelo menos a política vai ganhar um humorista – arrematou o moleque.
Depois desse comentário espirituoso, levantei, puxei a cordinha para o apito gritar e caminhei com decisão para a porta. Era meu ponto. A piada até que era boa. Ou não.
Bem lembrado. Pois é.
[Bigode]
(Dando crédito, a íntegra do programa de onde tirei o jingle está aqui, aqui, aqui e aqui.)
Vocês sabem (e se não tanto, ao menos percebem) que o ritmo deste PAU é outro, talvez uma influência direta do nosso idílio chamado Salvador.
Pois bem, citando o companheiro Bigode, que pretende “virar especialista em piadas atrasadas, comentários fora de hora e as rebarbas da graça” – acredito que a questão do tempo como um todo, sob nossa perspectiva, está aí incutida.
Assim, venho abordar um assunto que soube já é onda há algum tempo no mundinho cibernético há algum tempo, mas do qual só tomei conhecimento há pouco.
A empresa “Do bem” produz sucos 100% naturais em caixinha e para divulgá-los, está lançando clipes no You Tube produzidos por João Brasil.
Brasil é hors concours e merecerá em breve um post. Não sou fã de açaíguardiãzumdebesouroumimãbrancaéatezdamanhã, mas os vídeos (vocês perceberão que dois foram lançados até agora – o aí de cima é o segundo) são muito bacanas.
E tic, tic, tac com meu boi balançando e tudo, é uma coisa profunda, que nos remete à lembranças indeléveis. (#anos90feelings)
[Sicrano]
P.s.1: a trilha sonora deste post está, perdoe-me dona Modéstia, muito bem bolada, má ôe!
P.s.2: para registro, este não é um post pago (não que tenhamos algo contra…), nem pela Do bem, nem pelo Carrapicho em busca de sua reinserção na mídia nacional. Por falar neles, como sei que você ficou com a música na cabeça, ouça (e veja) novamente! (Clique aqui, digo, ali…)
Pois bem, o tempo passa, o tempo voa, e a Rede TV! continua na vanguarda da bizarrice nacional. Após o Superpop proporcionar o encontro, o Manhã Maior (merda?) mostrou-nos como vai indo a, digamos assim, “lua-de-mel” da sapeca namoradeira e seu escolhido.
O amor é lindo, é uma coisa tão, tão… Para tomar emprestadas as palavras do gênio mor, Machado de Assis: “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” Enfim, que as imagens falem por si…
E aí, amaram?
Abraço
[Sicrano]
P.s.1: o que são aquelas duas moçoilas “apresentando” a reportagem? Bom, a presença de uma delas se explica. No fim das contas, pode ser uma dificuldade compartilhada.
P.s.2: mas quer dizer, a mulher de um abre na Rede TV! e a mulher do outro fecha, não necessariamente nesta ordem ou separadamente ou…
Você acharia legal se fosse convidado para um lugar e quem o convidou fechasse a porta no seu focinho? E, pior, em sendo intimidado pela Justiça para uma audiência, a própria proibisse sua presença?
Pois então, foi isso que aconteceu com o bravo Gideão Favelado Corintiano, canino, quatro patas, maloqueiro, sofredor e com a conta de água atrasada.
Ah, ninguém sabia qual seria a trilha sonora escolhida. Mui original...
Seu dono, o gênio Oswaldo Oliveira, colocou o seu animal de estimação como coautor de uma ação contra o corte de fornecimento de água. Mais detalhes aqui (clique no aqui, mas ali).
Aí, a esperta Sabesp convocou os dois para uma conversa de acordo, mas barrou o animal, no caso o cachorro, na porta. Quer dizer, o bicho quer cumprir suas obrigações e o impedem. Onde vamos parar?
Abraço
[Sicrano]
P.s.1: já sabem, é clicar na figurinha e levar uma lembrancinha…
P.s.2: se leram (e ouviram) com atenção o post, a sabedoria que fica, mesmo fora de contexto, é – “Os pobrema não é a maconha, a maconha tá ali, quietinha…”
P.s.3: este post foi uma contribuição familiar, fraternal.
Venho por meio desta… Bom, como vocês estão cientes, temos toda esta coisa de globalização e tal, ou seja, as culturas se misturam, cruzam e dão cria – umas boas, umas ruins, prevalece o gosto do freguês.
Enquanto o usual é recebermos do “Primeiro Mundo” as canções que devem se tornar nossa trilha sonora, o que nos motiva a fazer versões, para adaptá-las à nossa língua, o processo inverso também é possível.
Ei-lo:
Noves fora a tradução de “Marrom bombom” como “Brown goodgood” – talvez sejam os percalços e dilemas que os versionista vivem diariamente em sua criação, o que leva a uma necessidade de análise mais profunda dos significados da letra – tirem suas conclusões.
Para efeito de comparação, porque não apreciar o original?
Good, good?
[Sicrano]
P.s.: o campeão da versão de pagodes em inglês tem outras obras. Particularmente, acho que o caminho é interessante, mas as versões ainda estão devendo. Mas meu inglês/português não é muito bom…
Volto a esta página para falar de amor (parece que estou me encaminhando para me tornar uma espécie de conselheiro amoroso…) ou cara de pau. Nada mais adequado ao Pau na Mesa, não?
Peço aos queridos leitores que relembrem um post do dia 6 de agosto. Se não lembraram, cliquem aqui (e voltem!). Nele, apresentamos o então Pikiucho Solitário, que tentava de diversas formas reconquistar a Ju.
Nada melhor que o Roupa Nova para descrever a situação
Desde então, apesar da promessa em contrário, esquemos do cidadão. Por estes meandros que só o acaso poderia explicar, cuidei de verificar a quantas andava o caso e, para minha surpresa – mentira -, a historieta terminou com final feliz, mas o blog, entitulado “Volta Ju” (blog do seu dog que não agüenta mais esse fog de descaso.), continua no ar.
Tanto poder filosófico, do qual vocês tiveram a prova no post anterior, faz pensar sobre a veracidade da história, afinal, tamanho rebuscamento vai de encontro ao sofrimento premente do abandono.
Nestes últimos dois meses, em escala crescente, o Pikiucho acrescentou a “glagla deluxe” expressões como “centopeia (ou minhoca) ensandecida” e “pula pirat” – sem, é claro, revelar do que se tratam; contou que combatia a solidão na base da adoração a Onã; e, apenas reproduzo, “(..) sabe do que eu lembrei? De quando a gente brincava de Comandos em Ação!”.
Enfim, depois de outdoor e anúncios em jornais pedindo a volta de Ju (é sem acento, é sem acento…), ela deixou um recado na secretária eletrônica – “S-O-M-E, some da minha vida” -, ao qual nosso amigo, apesar de certa relutância, assentiu.
Mas eis que de repente, não mais que de repente, contrariando o próprio soneto, surge o milagre: stand up comedy! Sim, queridos e queridas, sob as bençãos de Serginho Mallandro, nosso campeão pediu que Ju, então na plateia do espetáculo, inocentemente, voltasse para ele. E…
… E ele conseguiu! E Pikiucho Solitário transmutou-se em Pikiucho Apaixonado. É o amor? Bem… O ser humano é imprevisíivel, tempo é uma coisa relativa, mas em dois meses passar do ódio à paixão novamente – e durante toda a novela não foi revelado o motivo do rompimento (ele apenas prometia “não mais atender a mãe durante o glagla deluxe gostoso”) – gera suspeitas.
E a fanfarronice se torna pública quando quem, ninguém menos que Ju passa a aparecer em vídeos no blog. Mais ou menos arredia da primeira vez, com uma espécie de disfarce, é verdade, mas depois vem o “Progama da Ju”. Além do que, os textos da página deixaram a filosofia inicial, trocada depois pela dureza poética do contidiano de sofrimento para se tornar “lek” – não a moeda da albânia, mas a linguagem playson. Ou seja, o blogueiro que cativou o Brasil era uma farsa.
E vida que segue.
[Sicrano]
P.S.: E você já sabe, se tem figurinha, é só dar uma clicadinha…
Antes de mais nada, desculpem-me pela ausência aqui por essas bandas. Não digo que isso não vai se repetir, mas, pelo menos, tem uma vantagem. Vou virar especialista em piadas atrasadas, comentários fora de hora e as rebarbas da graça. Não é nada, não é nada… não é grande coisa mesmo. Em todo caso, lá vai.
Quatro dias de preparação para reaparecer após a loja de fogos de artifício explodir e destruir quarteirões em Santo André, matando duas pessoas (chegaram a ser 11, mas parece que ressuscitaram nove nas primeiras horas de cobertura). Enfim, pensou no que ia falar, no que ia negar e no que ia omitir. Mas, na hora de se vestir, não pôde perder a piada.
Duvido que estivesse só com a roupa do corpo. Até uma camisetinha mamãe-sou-forte tava valendo. Depõe contra, mas a tal camisa surfista-descolada com o inocente wipeout estampado pega um pouco pior.
Presença de espírito (de porco) é uma arte.
[Bigode] sobre observação perspicaz da [Mãe do Bigode]